terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A HISTÓRIA DE UM ICONE


Na década de 1970 em meio à ditadura militar meu pai foi vereador por duas vezes em Campo do Brito e, acabou sendo cassado no segundo mandato. Sabe por quê? Nunca se corrompeu nunca se deixou vender por qualquer motivo e sempre defendeu o mandato com altivez. Passaram-se os anos e pensei que entraria na política. Estava no meu sangue os conflitos que quando garoto presenciava meu pai vivendo. Foi jurado de morte e, em uma das vezes eu estava próximo a ele na frente da Prefeitura Municipal que continua no mesmo lugar e endereço.

É só comprovar indo a Campo do Brito.
Depois de garoto e agora adulto vejo que a trajetória democrática ainda é insossa na sociedade sergipana e porque não dizer brasileira. Temos um apanágio de democracia que não se plenifica por dois motivos: ausência de ética no trato com a coisa pública e uma cultura maciça de submissão que o nosso povo – sobretudo os mais pobres – permite-se adentrar criando rasgos de corrupção e maldade “política”.


Pois bem, hoje 02 de dezembro Sergipe perdeu um “Icone” ou se quisermos, despede-se de um cara, um exímio orador, um republicano que soube honrar os mandatos que o povo lhe confiou. Perdemos hoje Marcelo Déda, “Icone”, da ética e da capacidade insuperável de discursar. De antepor-se aos fatos. Não me cabe aqui enaltecer obras e devaneios políticos, até mesmo porque há muitos e muitas que aproveitaram-se da história de Déda e do PT em Sergipe para pegar carona. Triste história que terá que conviver com um enorme vazio.
O “Icone” simboliza e representa muito mais do que a sua tela pintada esboça. Ele convida e impulsiona seu admirador para ver longe, flutuar, para admirar e colocar-se ao seu lado dando a impressão que, pela sua história e dentro da mesma, todos somos parte da sua beleza. Basta ver e encantar-se com o ícone de Rublev – quadro da SSma Trindade – ou de ícones sobre o Cristo, pintado nas igrejas orientais. Beleza, encanto, história, ternura que instiga a reflexão. Cada palavra de Déda e cada discurso, até os de improviso era recheado de logicidade e competência.


Amigos (as) companheiros nesses últimos 20 anos de que pude me aproximar como Zezito, Narcizo Machado, Hugo Sidney, Irene, Paulo (grupo das CEBs: Irenir (Bel), Nadjane, Josimar, Luis Bispo), o Souza que acompanhei no percurso vocacional e tantos outros ainda refletem a capacidade de uma geração que debatia (e debate) e sabia que em Sergipe com todas as suas artimanhas e barreiras, era possível sonhar com o novo. Agora perdemos um ícone do novo e fechamos um ciclo afirmando: Déda não pegou carona na história republicana do Brasil, antes e depois da era Lula. Déda fez história, construiu propostas e deixa seu legado para as futuras gerações. Jesus disse e eu creio: “Eu Sou a Ressurreição e a Vida”. Descanse em paz, Marcelo Déda Chagas.

 

José Soares de Jesus

Mestre em Ciências da Religião

UNICAP - PE

 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Como se caracteriza o fato religioso hoje?

Discutir a questão religiosa é uma verdadeira saga que envolve o relógio biológico, psicológico, temporal e teológico do pesquisador sobre o assunto. Há uma necessidade premente e irrenunciável: debruçar-se sobre os fatos que aproximam e distanciam o ser humano de um ou outro segmento religioso.
 Acenamos acima para a questão dos “relógios” porque não se pode medir o hoje da vida/manifestação religiosa sem conhecer os encaminhamentos passados, seus desdobramentos, suas influências e etc. A religião cobre o ser humano de forma abrasadora – “Pois a Palavra de Deus é viva e eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas” Hebreus 4,12 – ela corta ossos e medulas, criando uma dor suportável ou insuportável na sua existência. Não se pode anular o credo religioso de um povo ou raça dentro de uma época. Queremos ressaltar que não se pode desmerecer, desdizer. Toda manifestação religiosa com suas interfaces acaba varando a história.
Quanto à caracterização do fato religioso, gostaríamos de iniciar com um breve comentário e depois apontar três características que emergiram na nossa reflexão.
A necessidade de buscar o sagrado não se esgota mais no encontro da vida religiosa com uma doutrina. Desafiado a pensar em Deus ou sem Deus o sujeito pós-moderno se capacita a superar as tendências religiosas consideradas ‘convencionais’ para construir um caminho multifacetado. Há na condição humana o desejo de saciar o espírito, de fazer experiências religiosas que responda às suas inquietações. As respostas apresentadas anteriormente pelas tradições religiosas cristãs ou mesmo pertencentes aos grupos religiosos mais tematizados como budismo, islamismo, xintoísmo e outros, deixaram crescer um sentimento de pertença limitado e por ai, o homem e mulher de hoje, encara a diversidade e a pluralidade religiosa como um risco mais que precisa ser encarado.


Dentre as várias características podemos apontar três:

1.1  O crescimento do pluralismo. Ele enseja algumas interrogações que ajuda na formação do discurso religioso hoje.
O que é pluralismo religioso? Consideremos que ele não é a ausência de verdades como se pregava nas religiões do ‘livro’. Trata-se da existência de credos e manifestações religiosas que procuram envolver o ser humano com suas preocupações. Apontamos autores que descrevem: a idéia pluralista – que marca inevitavelmente os tempos atuais – não significa anular a doutrina hegemônica no ocidente capiteneada pelo cristianismo.
“Conforme dados recentes, cerca de dois terços da população mundial não conhecem Jesus Cristo; a população restante, constituída de cristãos, encontra-se dividida entre si” (TEIXEIRA.Faustino. http://www.editoraufjf.com.br/revista/index.php/numen/article/view/866/751). Ano 2000, p. 3).
“O Deus uno e trino, que é mistério de amor, não se encerra na solidão da incomunicabilidade, mas comunga o seu mistério plural ao gênero humano na história. Trata-se de uma comunicação transbordante e diversificada. As tradições religiosas da humanidade expressam estes "diversos modos" (Hb 1.1) com que Deus falou e se prodigalizou aos seres humanos, muitas vezes, em sua história” (TEIXIERA. Faustino. Ibid, 2000, p. 5).
Mas deixar que os fenômenos ditos religiosos apareçam em toda a sua inteireza. Nunca minimizar a prática oriunda de qualquer segmento, antes estudá-la com isonomia e sem preconceitos. Considerado excêntrico em algumas de suas afirmações, esse pensador, tem colocado para discussão o fato mais típico dos tempos atuais e que merece nossa atenção.
Porque se debate tanto esse fenômeno na atualidade? Com o crescimento numérico e provado por estatísticas de vários segmentos religiosos, aquela superioridade do cristianismo e do catolicismo no Brasil e no mundo passou a ser questionada. Urge uma nova consciência religiosa que já se admite várias pertenças e até misturas na prática religiosa. O debate sobre o pluralismo ganha corpo no campo acadêmico e entre os vários estudiosos das espiritualidades que surgem no momento. Recordamos o Dalai-Lama, figura central do budismo tibetano, que nos seus escritos, deixa nítida a idéia de respeito, tolerância e convivência pacífica com o diferente. Ademais, cremos que atravessamos no hoje da história um momento delicado, aonde não cabem mais atitudes de rechaçamento a quem vê e experimenta o sagrado de maneira diferente da minha. A vontade de se encontrar caminhos pacíficos para a convivência dos vários povos e culturas passa pela religiosidade. Impõe-se praticamente um caminho plural, aonde o crente conhecedor de sua doutrina, possa sentar-se para discutir com os outros sem alimentar o ódio, o preconceito e animosidades. É um caminho no nosso entendimento, que não tem mais volta.
1.2. A força do secularismo: diante da separação proposta pela modernidade entre o Estado e a religião, fica clara a concepção do secularismo que a sociedade assume perante aquilo que chamamos “a vida religiosa”. A modernidade dita outras regras para a vida social que entram em contraste com a estrutura religiosa que antes dominava as pessoas. A modernidade não aceita mais a superioridade da religião. Chega até, como vimos em questões anteriores, a preconizar o seu fim. É nesse contexto, que o secularismo se impõe como fenômeno e gera uma fisionomia diferente na prática religiosa atual.
Aquilo que se caracteriza como secular precisa ser encarado pelas religiões como fato. Vejamos por exemplo: a indiferença, o suposto ateísmo proclamado por muitos e muitas, o descuido com normas religiosas rígidas na vida sócio-religiosa de muitas pessoas – e até mesmo a ciência que procura responder as inquietações humanas – não deve antever um fim dos credos. E sim, uma nova maneira de se postar perante a vida. Tornar a discutir a questão do sagrado, já pressupõe a necessidade de não se encolher diante dos questionamentos seculares.
1.3. A emergência do ‘subjetivismo’: ao buscar a vida religiosa contemporânea em suas várias facetas, o ser humano se pergunta se esse caminho vai contemplar as suas inquietações, responder às suas angústias e oferecer uma tranqüilidade espiritual. O que vemos hoje é exatamente o princípio do ‘eu’, ou seja, a satisfação do sujeito sobrepondo-se ao sentimento coletivo.
O subjetivismo caracteriza as procuras religiosas atuais. Trata-se de um caminho emergente da cultual atual que não pode ser negligenciado. São muitas as experiências descritas por pessoas que procuram o sagrado de forma contundente e não se enquadram, digamos assim, nos moldes das religiões tradicionais. Em muitos casos, a experiência gera mistura de aspectos doutrinais de várias religiões ou até a diluição de determinados valores religiosos. Nesse caso, uma das mais acentuadas correntes atuais é a conhecida “nova era”. O subjetivismo que colocamos aqui, não é um pressuposto para ser condenado. E sim, uma verificação dos sintomas religiosos atuais que merece pesquisa. Vemo-lo também como um traço cultural que emerge com força na modernidade e precisa ser conhecido e encarado como todo fenômeno de estudo. 

                                                             JOSÉ SOARES DE JESUS
                                                    MESTRE EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
                                                                  UNICAP - PE

domingo, 14 de abril de 2013

A FARTURA NA VIDA DA COMUNIDADE

A presença do ressuscitado nas margens do mar de Tiberiádes – palavra que significa Ṭabariyyah: uma cidade no norte de Israel.  Foi denominada em honra ao imperador romano Tibério – modifica a fisionomia e a história dos apóstolos Pedro, Tomé, Natanael e mais quatro do grupo que seguia o Nazareno (João 21,1). O trecho de João 21, 1-14, mostra a condição “renovada” do grupo após a ressurreição. Além da audácia e da paz que sentiam, os apóstolos são apresentados como homens que retornam a sua rotina e dentro dela, a perspectiva da mudança é sentida com muita força.
Quando refletimos sobre a páscoa em meio a essas pericopes do segundo testamento (N.T.), uma indagação deve nortear-nos: o que muda de fato na vida dos cristãos com a Ressurreição? Tudo não parece normal? Ora, aparentemente sim. Olhando na dimensão bíblica e a partir dela vislumbrando a realidade da sociedade moderna atual tudo parece o mesmo. As tragédias, o sofrimento da natureza, a violência contra o ser humano – de modo mais chocante contra as mulheres e os idosos – a iminência de guerra e outras anomalias parecem desconfigurar o que vemos e assistimos. Na verdade, o céu não trocou de lugar com a terra, mas, na vida dos seguidores e seguidoras de Jesus se estabelecem novos parâmetros. Ai está à diferença da páscoa para nós.
Em primeiro lugar, a certeza da paz. A novidade do Senhor vivo e agindo entre eles estabelece um novo tipo de relacionamento. Seja na ótica de João ou na de Lucas – evangelho e atos – é preciso restaurar o comportamento perante as dificuldades e os conflitos. O Senhor vive e passa a ser o centro da vivência e da pregação da comunidade. Notemos que logo no início Estêvão é martirizado, as perseguições prosseguem e, mesmo assim, existe um clima de paz, serenidade e alegria. A paz não é sinônimo de acomodação ou de “irenismo”. Ela é fruto de busca e de conquista. Como cristãos (as) amadurecidos, temos que devolver a nossas comunidades essa sensação. Somos muito carentes de paz.
Em segundo lugar, a dimensão da esperança. O ressuscitado cumpre a promessa e envia o Espírito Santo sobre a “nova comunidade” (Atos 2). O Senhor não tergiversa e nem confunde o grupo. Homens e mulheres seguiam de perto o nazareno e, agora, ressuscitado, seguirão a esperança e a concretude das suas promessas. O Espírito de Deus dado a comunidade permitirá que tudo continue como antes; claro que de maneira intensa e iluminada. Aqui não podemos deixar de apontar a melodia de Zé Vicente. Com seu talento e mística é um dos maiores divulgadores da luz e da esperança entre nossas comunidades. Canta o Zé: “Quando o Espírito de Deus soprou o mundo inteiro iluminou. A esperança na terra brotou e um povo novo deu-se as mãos e caminhou. Lutar e crer vencer a dor louvar o criador. Justiça e paz hão de reinar e viva o amor”.
Em terceiro lugar, o sentido da fartura (João 21, 9-12). Pão, peixe, comidas típicas entre nós, água, chuva e outros sinais. Como estamos carentes de partilha. No texto de João, antes de desembarcar os apóstolos vêem o Senhor e encontram comida na beira do mar de Tiberíades. É um sinal inconteste de que onde Deus está à amargura, o egoísmo, o consumo desenfreado e excludente não se perpetua. Para que o Cristo acenderia o fogo senão para sinalizar que ele aquece apenas os que sabem dividir? Não teria sentido o ressuscitado voltar a Galiléia e se auto-apresentar. Não necessitava disso. Sua passagem de volta entre a comunidade aponta para a superação da fome, da dor, do constrangimento. É duro, impiedoso, anti-evangélico ver ao nosso redor a fome que ainda assola irmãos e irmãs. A páscoa não pode estar completa se nossas comunidades não aprenderem a maior lição do nazareno: a partilha do pão!


José Soares de Jesus
Assessor das CEBs
Professor de História e Sociologia da Religião
Mestre em Ciência das Religiões pela UNICAP-PE

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A COMUNIDADE APOSTÓLICA E SEUS DESAFIOS

No contexto da alegria pascal celebramos no segundo domingo da páscoa um dos momentos mais alvissareiros da ‘comunidade’ dos seguidores (as) de Jesus. Com textos provocativos como o de Atos 5,12-16 e o de Ap 1,9ss, pudemos observar como são reais e contundentes os traços da verdadeira comunidade cristã.
Logo de início antes dos relatos bíblicos cabe uma pergunta: nossas comunidades ditas cristãs de hoje, possuem na verdade características comuns com a dos primeiros cristãos, ou são apenas, agrupamentos humanos? Vamos a alguns fatos!
Togo grupo que se reúne em torno de alguma coisa, ou acontecimento ou memória ou fato extraordinário, consegue resgatar com pujança a origem do que aconteceu no passado para impulsionar a realidade presente. Ou seja, é um grupo que tem motivação e objetivo claro. Nossas comunidades vivem ligadas umbilicalmente ao que celebram? Possuem norte e direcionamento ou vivem presas a regras e atabalhoadas na mesmice? Procuram resgatar a memória do ressuscitado?
Na leitura dos Atos 5, 12-16 a coragem de Pedro e a crença expressa dos fiéis tem uma conotação belíssima. Possui traços de liberdade e ousadia. Sinceramente, não vejo muito essas questões nas comunidades aonde passo. Lucas descreve que, quando Pedro passava algo de novo acontecia. Os fiéis levavam até doentes para ver se a sombra de Pedro tocava-os ao passar (At 5, 15). O que carregava consigo esse “homem simples”, esse – numa linguagem do sertão – tabareu da Galiléia? Algum talismã ou poder esotérico? Nada disso. E talvez aqui esteja presente a chave da questão. Mesmo antes da efusão do Espírito Santo, Pedro vem dominado – de dominus, Senhor – pelo Espírito do Senhor Ressuscitado. Pedro encabeça uma comunidade que se sente movida, atraída liberta e pronta para seguir um Deus vivo e não a imagem de uma figura inerte.
Pronto, dois traços já podem clarear o caminho da comunidade que se diz cristã. O primeiro é a Ousadia. Não confundir com petulância e falta de bom senso. Cristão (ã) de verdade não perde tempo com conversas dúbias e sem rumo. Não se preocupa em demasia com a vida dos outros. Não fofoca, não perturba a vida de quem descobre o caminho do ressuscitado. Não atrapalha a mística daqueles e daquelas que possuem espírito forte e orante (ver Ap 1, 10-12). Ousadia é o mesmo que destemor. Você vê e sente isso na sua comunidade?
O outro traço é a Liberdade que o Espírito provoca. Parece que há muita gente acovardada no atual contexto da vida cristã. E mais, em todos os níveis. Parecem mais preocupados com o espetáculo e as rendas do que com a continuidade da libertação que Jesus trouxe. Esses (as) são covardes. São traidores da missão do nazareno. Pouco afeitos a mudança e por isso, colocam todo tipo de barreira para que as coisas não deslanchem. A liberdade provoca entrega, alegria, satisfação generosa, abertura e diálogo com o diferente. Seja de uma religião diferente, de um grupo social, cultural, das minorias, etc. Quem é provocado pelo Espírito do Ressuscitado não idolatra o poder, mais o utiliza em função dos excluídos e dos desanimados. Nossas comunidades agem assim?
Por fim, creio que urge verificar se nossas reuniões e celebrações não estão formando agrupamentos humanos com interesses distintos daqueles que Jesus preconiza. Oxalá esteja no caminho certo. E como no evangelho de João 20,19-31 Ele, o Ressuscitado, aparece e deseja por três vezes a paz, é melhor exorcizar os três venenos ou “demônios” que impedem essa paz nas comunidades. São eles: a mentira, a divisão e a fofoca. Trabalhemos e vejamos a partir dessas referências se sua comunidade e as comunidades são de fato lugar – topos - de amadurecimento humano e cristão.

José Soares de Jesus
Assessor das CEBs em Aracaju-SE
Professor de História e Sociologia da Religião
Mestre em Ciências da Religião pela UNICAP-PE



sábado, 9 de fevereiro de 2013

O DESAFIO DA PESCA


O tempo comum expressa uma forte relação entre Jesus e o povo. Hoje, quinto domingo, aparece um texto forte de Lucas 5,1-11 evidenciando um pregador destemido e com a utilização de uma técnica inaudita. Leiamos os vv. 2-3 como ele afasta a barca da terra. Ora, essa atitude ajudava a voz do pregador a se expandir e ecoar. A voz batia na água e a própria natureza se encarregava de espalhar a sonoridade. Era comum o uso da técnica e Jesus a aperfeiçoa pelo cuidado e pela ternura que tem pelo povo. O texto diz: “subiu a uma das barcas que era de Simão e pediu-lhe que a afastasse um pouco da terra; e sentado, ensinava da barca o povo”.

O caminho profético de Jesus é diferenciado. Ele sentado, ensinava a multidão. Recorda um gesto de autoridade. Seus adversários se enfureciam e são muitos os textos que evidenciam isto. Por ex.: Lc 6,11 – “Eles ficaram com muita raiva e começaram a conversar sobre o que poderiam fazer contra Jesus”. Tamanha rejeição é fruto da escolha feita por Jesus. Quem está em destaque perante ele é o povo e não as autoridades. E mais, sua autoridade é acompanhada de uma ternura incomum, que torna-o diferente dos demais pregadores. Vejamos como no desenrolar da cena, a pesca entra como um prolongamento de quem observa a vida dos que o cercam.

Pedro, a pesca e nós

“Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar”. Avança Pedro. Coragem Pedro. A barca era de Simão e os peixes “escondidos no mar”. Numa nítida metáfora não podemos ver aqui o retrato da abundância messiânica? O que nos impede de enxergar no texto, a liberdade provocadora de Jesus diante da natureza, das pessoas, dos apóstolos e do povo? Para seguir Jesus de perto e fazer o que Ele fez tem que ser livre. Avança Pedro, avança comunidade tíbia e medrosa. O recado é claro: estamos engessando o evangelho. Nossa visão de Jesus e de sua profecia é quase sempre míope e interesseira provocando letargia – sono profundo – e um grande desgaste na maneira de apresentar o evangelho.

Em tempos de águas turbulentas é necessário arriscar mais e desapegar-se de certos preconceitos que atrapalham e, muito, os evangelizadores atuais. Alguns deles são: fundamentalismo e restrição ao círculo dos grupos católicos. Tudo isso acontece de forma nítida porque estamos ansiosos em pregar a “nós mesmos”. O conteúdo da pregação em muitos casos é recheado de lacunas aonde não se percebe a relação do pregador com aquilo que ele fala. Árbitros e juízes, senhores e moralistas se antecipam e condenam na pregação a tudo e a todos. Em certos momentos e lugares estão mais incisivos e condenativos do que os pregadores do período medieval. Há muitos e muitas enxergando heresias e erros em todo canto. Que pobreza. Não teria Pedro, por ordem de Jesus, apanhado peixes diversos e diferentes? Que mania de prejulgar e excluir do Reino quem não tem a marca dos grupos e das igrejas.

Nossa pesca está se tornando obsoleta. Não podemos esquecer que o mar não é nosso, as redes, também não. Na verdade, somos peixes da embarcação de Pedro e não os donos do barco. Somos aprendizes da história do reino e quanto mais nos dispusermos a escutar o Mestre que continua sentado nas praças, ruas, avenidas, favelas e hospitais, mais sua voz ecoara na tentativa de transformar a história e as pessoas que acreditam na sua proposta libertadora. Ou ainda pensam que Ele está apenas na “nossa igreja”?

José Soares de Jesus

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A REJEIÇÃO DOS PROFETAS

O caminho traçado por Lucas nesse quarto domingo do Tempo Comum (Lc 4, 21-30) continua a disputa entre Jesus e os nazarenos na sinagoga. Cabe ressaltar que Nazaré foi o lugar onde ele se criou. Era conhecido no vilarejo e gozava de certa simpatia. Só que ao se anunciar como Messias tudo mudou.

A rejeição. É típico dos textos bíblicos a rejeição aos profetas sobretudo no Primeiro (antigo) Testamento. Bom lembrar Amós, Ezequiel e sobretudo Jeremias. Nos parece que uma questão basilar se impõe: quando o profeta fala sobre Iahweh e esbraveja, dizendo que Deus está descontente com o povo, sem problemas; mais quando ele ousa apontar os pecados de Israel, ai tudo muda. Na verdade, trata-se de uma situação que acompanha a história humana nas diversas tradições religiosas. Vários e vários grupos - afora Isarel - além do judaísmo tiveram a presença de homens e mulheres profetizando. A concepção e o corpo da pregaçlão muda, mais a teimosia e o orgulho do povo, não. Se olharmos bem o caso de Jeremias, notaremos que a rejeição e o sofrimento perpassaram sua atividade profética. Muitos textos apontam para a tristeza e diría até, depressão do profeta com a situação vivida na sua época. Mencionemos alguns: Jr 2, 20-37; 8, 18-23; 11,18-23 e tantos outros dele e de outros. São descrições fortes e de uma teologia incomensurável porque toca na ardilosa incapacidade entre sacerdócio e profecia, sobretudo numa época que muitos sacerdotes se vendiam aos reis de Israel. É, templo e pregação profética não confluiam e, por isso, a trajetória do Messias no evangelho não poderia ser amena.

Com Jesus seria diferente?
A proposta de Jesus transcendeu a vocação dos profetas. Na verdade, Jesus não anulou os profetas antigos mais superou as expectativas do povo quando criou um movimento de homens e mulheres para segui-lo. Acendeu com sua pregação um fogo de esperança e destoou daquilo que sacerdotes, escribas e doutores da lei esperavam. Ele não se detem ao Templo. Quebra as estruturas injustas que torturavam os pobres e sofredores. O próprio Lucas apresenta Jesus na sinagoga várias vezes e quando realiza sinais é criticado e rejeitado: 13, 10-17. Jesus foi rejeitado e tratado como subversivo da lei. O que denota na sua pregação pelo estilo de vida que levava, é que Jesus preocupava as autoridades religiosas da época. De novo, Templo e Profecia não se combinam. O Reino pregado por Jesus não cabe dentro das estruturas religiosas. Pelo jeito, teremos que encarar hoje essa ruptura, mais cedo ou mais tarde. A questão é se teremos clareza para ler os sinais dos tempos e continuarmos a trajetória proposta por Jesus.

Jesus e a profecia hoje
É complexo mencionar nos tempos atuais aonde vivem de fato os profetas. A força da 'Palavra' continua ardendo no coração do povo de Deus, sobretudo dos mais pobres. Só que os espaços são limitados para uma vivência jesuânica forte e contundente. Nas comunidades em geral sobra uma igreja de movimentos e que ao nosso ver, perfaz um caminho oposto ao de Jesus. Exsite preocupação com a estética e com o culto em detrimento da profecia. Muitos e muitas ousam resgatar o caminho do Messias e se faz necessário ouvi-los. Podemos recordar o testemunho de D. Romero, de D. Hélder e D. Távora. A coragem da africana Joseja Bakita, de Madre Tereza e de Dorothy Stang. Sentimos que nos meios eclesiais existe suspeição da causa vivida por eles e elas, mais o projeto de Jesus continua vivo na memória e na história deles (as). Quando nos defrontamos com a luta quilombola e a coragem profética do Pe. Isaías Nascimento aqui em Propriá, sentimos que ainda vale a pena crer no Reino. A profecia não morreu. A rejeição dos profetas não significa que morreu a utopia; pelo contrário, o sangue deles e a força da eucaristia simboliza a gratuidade de quem encontrou seu verdadeiro tesouro (Mt 5,1-12a).

José Soares de Jesus
Mestre em Cc da Religião - UNICAP/PE

sábado, 6 de outubro de 2012

DEMOCRACIA REPRESENTATIVA


Chegamos ao dia das eleições municipais. A noção de cidade e de democracia deveria nortear os eleitores (as) nesse momento tão delicado de nossa conjuntura. Só que infelizmente, muitos ignoram sua condição e até vendem de forma humilhante o seu voto.

Na cidade – e para nós de Aracaju – passamos a maior parte de nossas vidas. Nela sofremos, choramos, lutamos, sorrimos e votamos. Nas eleições municipais todos esses traços aparecem com força e nosso dever é contribuir com uma participação altiva e coerente.

O último debate dos candidatos majoritários em Aracaju foi pífio e desastroso. Nada de novo surgiu e, pareceu-nos um teatro o engessamento dos participantes e das perguntas. Não sentimos firmeza. Temas fundamentais para o povo aracajuano passou distante e alguns ataques pessoais voltaram à tona manchando a democracia e esnobando da inteligência do (a) eleitor (a).

Temos a convicção que dessa vez ainda não avançaremos em questões urgentes para a coletividade. Podemos citar a dimensão ambiental e a problemática dos transportes. Na primeira, vemos o rio Sergipe poluído e agonizando em nossa capital. Que vergonha! A população, representada por entidades, igrejas, sindicatos e grupos ligados ao meio ambiente tem feito muito pouco. Os gestores: nada! E então, quem vai nos representar nessa luta? Na segunda, estamos à deriva. As empresas de transporte coletivo mangam da população. As propostas da campanha precisam de exeqüibilidade e nós, cidadãos e cidadãs temos que cobrar. Sair desse “anestesiamento social” e de uma inércia profunda que gera corrupção e permite aos gestores adiar sempre mais as mudanças necessárias. Transporte de qualidade e, sobretudo, viabilizar conforto e menos poluição ao meio ambiente.

Num pais como o Brasil, aonde o regime político permite eleição para os municípios é uma vergonha omitir-se da votação. A democracia representativa é uma condição de fazer valer nosso voto para prefeitos e vereadores honestos e comprometidos com o bem comum. O prefeito exerce de forma “macro” o papel de um síndico. Ele governa e dirige o município para todos e todas; ele nos representa e não deve ser o dono das verbas e da vida da população. Por isso, deve cair quando governa mal. E os vereadores (as)? Possuem tarefa complexa. Apresentam projetos e fiscalizam o executivo. Num regime democrático e representativo como o nosso, vereador recebe delegação de um coeficiente “X” da população. Não é assistente social para doar coisas e empregos. Não é um “messias” na concepção de que deve salvar rebanhos. Cremos que no legislativo nossa escolha deva ser mais acurada. Eleger um (a) vereador (a) exige critérios éticos e na nossa cidade todo cuidado é pouco com a ingerência de empresas e grupos econômicos. A população precisa acordar para não sofrer depois conseqüências desastrosas como no caso do Plano Diretor.

Democracia é um exercício delicado e necessário. Representatividade exige consciência e uma práxis mais comunitária. Votar, eleger, cobrar e mudar de candidato pode ser uma boa saída, quando a população reconhece seu papel no sistema político. Para fechar – por hora – a questão, citamos um trecho da Centessimus Annus:

·        “A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torne oportuno; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objectivos ideológicos” (n. 46).

Oxalá, Deus nos permita dias melhores na nossa cidade. Consciência cidadã mais apurada e tempos melhores para nossos filhos (as), netos e netas.

José Soares de Jesus

Mestre em Ciências da Religião –UNICAP/PE

·        João Paulo II, Encíclica Centessimus Annus, 1991.