quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Como se caracteriza o fato religioso hoje?

Discutir a questão religiosa é uma verdadeira saga que envolve o relógio biológico, psicológico, temporal e teológico do pesquisador sobre o assunto. Há uma necessidade premente e irrenunciável: debruçar-se sobre os fatos que aproximam e distanciam o ser humano de um ou outro segmento religioso.
 Acenamos acima para a questão dos “relógios” porque não se pode medir o hoje da vida/manifestação religiosa sem conhecer os encaminhamentos passados, seus desdobramentos, suas influências e etc. A religião cobre o ser humano de forma abrasadora – “Pois a Palavra de Deus é viva e eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir alma e espírito, junturas e medulas” Hebreus 4,12 – ela corta ossos e medulas, criando uma dor suportável ou insuportável na sua existência. Não se pode anular o credo religioso de um povo ou raça dentro de uma época. Queremos ressaltar que não se pode desmerecer, desdizer. Toda manifestação religiosa com suas interfaces acaba varando a história.
Quanto à caracterização do fato religioso, gostaríamos de iniciar com um breve comentário e depois apontar três características que emergiram na nossa reflexão.
A necessidade de buscar o sagrado não se esgota mais no encontro da vida religiosa com uma doutrina. Desafiado a pensar em Deus ou sem Deus o sujeito pós-moderno se capacita a superar as tendências religiosas consideradas ‘convencionais’ para construir um caminho multifacetado. Há na condição humana o desejo de saciar o espírito, de fazer experiências religiosas que responda às suas inquietações. As respostas apresentadas anteriormente pelas tradições religiosas cristãs ou mesmo pertencentes aos grupos religiosos mais tematizados como budismo, islamismo, xintoísmo e outros, deixaram crescer um sentimento de pertença limitado e por ai, o homem e mulher de hoje, encara a diversidade e a pluralidade religiosa como um risco mais que precisa ser encarado.


Dentre as várias características podemos apontar três:

1.1  O crescimento do pluralismo. Ele enseja algumas interrogações que ajuda na formação do discurso religioso hoje.
O que é pluralismo religioso? Consideremos que ele não é a ausência de verdades como se pregava nas religiões do ‘livro’. Trata-se da existência de credos e manifestações religiosas que procuram envolver o ser humano com suas preocupações. Apontamos autores que descrevem: a idéia pluralista – que marca inevitavelmente os tempos atuais – não significa anular a doutrina hegemônica no ocidente capiteneada pelo cristianismo.
“Conforme dados recentes, cerca de dois terços da população mundial não conhecem Jesus Cristo; a população restante, constituída de cristãos, encontra-se dividida entre si” (TEIXEIRA.Faustino. http://www.editoraufjf.com.br/revista/index.php/numen/article/view/866/751). Ano 2000, p. 3).
“O Deus uno e trino, que é mistério de amor, não se encerra na solidão da incomunicabilidade, mas comunga o seu mistério plural ao gênero humano na história. Trata-se de uma comunicação transbordante e diversificada. As tradições religiosas da humanidade expressam estes "diversos modos" (Hb 1.1) com que Deus falou e se prodigalizou aos seres humanos, muitas vezes, em sua história” (TEIXIERA. Faustino. Ibid, 2000, p. 5).
Mas deixar que os fenômenos ditos religiosos apareçam em toda a sua inteireza. Nunca minimizar a prática oriunda de qualquer segmento, antes estudá-la com isonomia e sem preconceitos. Considerado excêntrico em algumas de suas afirmações, esse pensador, tem colocado para discussão o fato mais típico dos tempos atuais e que merece nossa atenção.
Porque se debate tanto esse fenômeno na atualidade? Com o crescimento numérico e provado por estatísticas de vários segmentos religiosos, aquela superioridade do cristianismo e do catolicismo no Brasil e no mundo passou a ser questionada. Urge uma nova consciência religiosa que já se admite várias pertenças e até misturas na prática religiosa. O debate sobre o pluralismo ganha corpo no campo acadêmico e entre os vários estudiosos das espiritualidades que surgem no momento. Recordamos o Dalai-Lama, figura central do budismo tibetano, que nos seus escritos, deixa nítida a idéia de respeito, tolerância e convivência pacífica com o diferente. Ademais, cremos que atravessamos no hoje da história um momento delicado, aonde não cabem mais atitudes de rechaçamento a quem vê e experimenta o sagrado de maneira diferente da minha. A vontade de se encontrar caminhos pacíficos para a convivência dos vários povos e culturas passa pela religiosidade. Impõe-se praticamente um caminho plural, aonde o crente conhecedor de sua doutrina, possa sentar-se para discutir com os outros sem alimentar o ódio, o preconceito e animosidades. É um caminho no nosso entendimento, que não tem mais volta.
1.2. A força do secularismo: diante da separação proposta pela modernidade entre o Estado e a religião, fica clara a concepção do secularismo que a sociedade assume perante aquilo que chamamos “a vida religiosa”. A modernidade dita outras regras para a vida social que entram em contraste com a estrutura religiosa que antes dominava as pessoas. A modernidade não aceita mais a superioridade da religião. Chega até, como vimos em questões anteriores, a preconizar o seu fim. É nesse contexto, que o secularismo se impõe como fenômeno e gera uma fisionomia diferente na prática religiosa atual.
Aquilo que se caracteriza como secular precisa ser encarado pelas religiões como fato. Vejamos por exemplo: a indiferença, o suposto ateísmo proclamado por muitos e muitas, o descuido com normas religiosas rígidas na vida sócio-religiosa de muitas pessoas – e até mesmo a ciência que procura responder as inquietações humanas – não deve antever um fim dos credos. E sim, uma nova maneira de se postar perante a vida. Tornar a discutir a questão do sagrado, já pressupõe a necessidade de não se encolher diante dos questionamentos seculares.
1.3. A emergência do ‘subjetivismo’: ao buscar a vida religiosa contemporânea em suas várias facetas, o ser humano se pergunta se esse caminho vai contemplar as suas inquietações, responder às suas angústias e oferecer uma tranqüilidade espiritual. O que vemos hoje é exatamente o princípio do ‘eu’, ou seja, a satisfação do sujeito sobrepondo-se ao sentimento coletivo.
O subjetivismo caracteriza as procuras religiosas atuais. Trata-se de um caminho emergente da cultual atual que não pode ser negligenciado. São muitas as experiências descritas por pessoas que procuram o sagrado de forma contundente e não se enquadram, digamos assim, nos moldes das religiões tradicionais. Em muitos casos, a experiência gera mistura de aspectos doutrinais de várias religiões ou até a diluição de determinados valores religiosos. Nesse caso, uma das mais acentuadas correntes atuais é a conhecida “nova era”. O subjetivismo que colocamos aqui, não é um pressuposto para ser condenado. E sim, uma verificação dos sintomas religiosos atuais que merece pesquisa. Vemo-lo também como um traço cultural que emerge com força na modernidade e precisa ser conhecido e encarado como todo fenômeno de estudo. 

                                                             JOSÉ SOARES DE JESUS
                                                    MESTRE EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
                                                                  UNICAP - PE

domingo, 14 de abril de 2013

A FARTURA NA VIDA DA COMUNIDADE

A presença do ressuscitado nas margens do mar de Tiberiádes – palavra que significa Ṭabariyyah: uma cidade no norte de Israel.  Foi denominada em honra ao imperador romano Tibério – modifica a fisionomia e a história dos apóstolos Pedro, Tomé, Natanael e mais quatro do grupo que seguia o Nazareno (João 21,1). O trecho de João 21, 1-14, mostra a condição “renovada” do grupo após a ressurreição. Além da audácia e da paz que sentiam, os apóstolos são apresentados como homens que retornam a sua rotina e dentro dela, a perspectiva da mudança é sentida com muita força.
Quando refletimos sobre a páscoa em meio a essas pericopes do segundo testamento (N.T.), uma indagação deve nortear-nos: o que muda de fato na vida dos cristãos com a Ressurreição? Tudo não parece normal? Ora, aparentemente sim. Olhando na dimensão bíblica e a partir dela vislumbrando a realidade da sociedade moderna atual tudo parece o mesmo. As tragédias, o sofrimento da natureza, a violência contra o ser humano – de modo mais chocante contra as mulheres e os idosos – a iminência de guerra e outras anomalias parecem desconfigurar o que vemos e assistimos. Na verdade, o céu não trocou de lugar com a terra, mas, na vida dos seguidores e seguidoras de Jesus se estabelecem novos parâmetros. Ai está à diferença da páscoa para nós.
Em primeiro lugar, a certeza da paz. A novidade do Senhor vivo e agindo entre eles estabelece um novo tipo de relacionamento. Seja na ótica de João ou na de Lucas – evangelho e atos – é preciso restaurar o comportamento perante as dificuldades e os conflitos. O Senhor vive e passa a ser o centro da vivência e da pregação da comunidade. Notemos que logo no início Estêvão é martirizado, as perseguições prosseguem e, mesmo assim, existe um clima de paz, serenidade e alegria. A paz não é sinônimo de acomodação ou de “irenismo”. Ela é fruto de busca e de conquista. Como cristãos (as) amadurecidos, temos que devolver a nossas comunidades essa sensação. Somos muito carentes de paz.
Em segundo lugar, a dimensão da esperança. O ressuscitado cumpre a promessa e envia o Espírito Santo sobre a “nova comunidade” (Atos 2). O Senhor não tergiversa e nem confunde o grupo. Homens e mulheres seguiam de perto o nazareno e, agora, ressuscitado, seguirão a esperança e a concretude das suas promessas. O Espírito de Deus dado a comunidade permitirá que tudo continue como antes; claro que de maneira intensa e iluminada. Aqui não podemos deixar de apontar a melodia de Zé Vicente. Com seu talento e mística é um dos maiores divulgadores da luz e da esperança entre nossas comunidades. Canta o Zé: “Quando o Espírito de Deus soprou o mundo inteiro iluminou. A esperança na terra brotou e um povo novo deu-se as mãos e caminhou. Lutar e crer vencer a dor louvar o criador. Justiça e paz hão de reinar e viva o amor”.
Em terceiro lugar, o sentido da fartura (João 21, 9-12). Pão, peixe, comidas típicas entre nós, água, chuva e outros sinais. Como estamos carentes de partilha. No texto de João, antes de desembarcar os apóstolos vêem o Senhor e encontram comida na beira do mar de Tiberíades. É um sinal inconteste de que onde Deus está à amargura, o egoísmo, o consumo desenfreado e excludente não se perpetua. Para que o Cristo acenderia o fogo senão para sinalizar que ele aquece apenas os que sabem dividir? Não teria sentido o ressuscitado voltar a Galiléia e se auto-apresentar. Não necessitava disso. Sua passagem de volta entre a comunidade aponta para a superação da fome, da dor, do constrangimento. É duro, impiedoso, anti-evangélico ver ao nosso redor a fome que ainda assola irmãos e irmãs. A páscoa não pode estar completa se nossas comunidades não aprenderem a maior lição do nazareno: a partilha do pão!


José Soares de Jesus
Assessor das CEBs
Professor de História e Sociologia da Religião
Mestre em Ciência das Religiões pela UNICAP-PE

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A COMUNIDADE APOSTÓLICA E SEUS DESAFIOS

No contexto da alegria pascal celebramos no segundo domingo da páscoa um dos momentos mais alvissareiros da ‘comunidade’ dos seguidores (as) de Jesus. Com textos provocativos como o de Atos 5,12-16 e o de Ap 1,9ss, pudemos observar como são reais e contundentes os traços da verdadeira comunidade cristã.
Logo de início antes dos relatos bíblicos cabe uma pergunta: nossas comunidades ditas cristãs de hoje, possuem na verdade características comuns com a dos primeiros cristãos, ou são apenas, agrupamentos humanos? Vamos a alguns fatos!
Togo grupo que se reúne em torno de alguma coisa, ou acontecimento ou memória ou fato extraordinário, consegue resgatar com pujança a origem do que aconteceu no passado para impulsionar a realidade presente. Ou seja, é um grupo que tem motivação e objetivo claro. Nossas comunidades vivem ligadas umbilicalmente ao que celebram? Possuem norte e direcionamento ou vivem presas a regras e atabalhoadas na mesmice? Procuram resgatar a memória do ressuscitado?
Na leitura dos Atos 5, 12-16 a coragem de Pedro e a crença expressa dos fiéis tem uma conotação belíssima. Possui traços de liberdade e ousadia. Sinceramente, não vejo muito essas questões nas comunidades aonde passo. Lucas descreve que, quando Pedro passava algo de novo acontecia. Os fiéis levavam até doentes para ver se a sombra de Pedro tocava-os ao passar (At 5, 15). O que carregava consigo esse “homem simples”, esse – numa linguagem do sertão – tabareu da Galiléia? Algum talismã ou poder esotérico? Nada disso. E talvez aqui esteja presente a chave da questão. Mesmo antes da efusão do Espírito Santo, Pedro vem dominado – de dominus, Senhor – pelo Espírito do Senhor Ressuscitado. Pedro encabeça uma comunidade que se sente movida, atraída liberta e pronta para seguir um Deus vivo e não a imagem de uma figura inerte.
Pronto, dois traços já podem clarear o caminho da comunidade que se diz cristã. O primeiro é a Ousadia. Não confundir com petulância e falta de bom senso. Cristão (ã) de verdade não perde tempo com conversas dúbias e sem rumo. Não se preocupa em demasia com a vida dos outros. Não fofoca, não perturba a vida de quem descobre o caminho do ressuscitado. Não atrapalha a mística daqueles e daquelas que possuem espírito forte e orante (ver Ap 1, 10-12). Ousadia é o mesmo que destemor. Você vê e sente isso na sua comunidade?
O outro traço é a Liberdade que o Espírito provoca. Parece que há muita gente acovardada no atual contexto da vida cristã. E mais, em todos os níveis. Parecem mais preocupados com o espetáculo e as rendas do que com a continuidade da libertação que Jesus trouxe. Esses (as) são covardes. São traidores da missão do nazareno. Pouco afeitos a mudança e por isso, colocam todo tipo de barreira para que as coisas não deslanchem. A liberdade provoca entrega, alegria, satisfação generosa, abertura e diálogo com o diferente. Seja de uma religião diferente, de um grupo social, cultural, das minorias, etc. Quem é provocado pelo Espírito do Ressuscitado não idolatra o poder, mais o utiliza em função dos excluídos e dos desanimados. Nossas comunidades agem assim?
Por fim, creio que urge verificar se nossas reuniões e celebrações não estão formando agrupamentos humanos com interesses distintos daqueles que Jesus preconiza. Oxalá esteja no caminho certo. E como no evangelho de João 20,19-31 Ele, o Ressuscitado, aparece e deseja por três vezes a paz, é melhor exorcizar os três venenos ou “demônios” que impedem essa paz nas comunidades. São eles: a mentira, a divisão e a fofoca. Trabalhemos e vejamos a partir dessas referências se sua comunidade e as comunidades são de fato lugar – topos - de amadurecimento humano e cristão.

José Soares de Jesus
Assessor das CEBs em Aracaju-SE
Professor de História e Sociologia da Religião
Mestre em Ciências da Religião pela UNICAP-PE



sábado, 9 de fevereiro de 2013

O DESAFIO DA PESCA


O tempo comum expressa uma forte relação entre Jesus e o povo. Hoje, quinto domingo, aparece um texto forte de Lucas 5,1-11 evidenciando um pregador destemido e com a utilização de uma técnica inaudita. Leiamos os vv. 2-3 como ele afasta a barca da terra. Ora, essa atitude ajudava a voz do pregador a se expandir e ecoar. A voz batia na água e a própria natureza se encarregava de espalhar a sonoridade. Era comum o uso da técnica e Jesus a aperfeiçoa pelo cuidado e pela ternura que tem pelo povo. O texto diz: “subiu a uma das barcas que era de Simão e pediu-lhe que a afastasse um pouco da terra; e sentado, ensinava da barca o povo”.

O caminho profético de Jesus é diferenciado. Ele sentado, ensinava a multidão. Recorda um gesto de autoridade. Seus adversários se enfureciam e são muitos os textos que evidenciam isto. Por ex.: Lc 6,11 – “Eles ficaram com muita raiva e começaram a conversar sobre o que poderiam fazer contra Jesus”. Tamanha rejeição é fruto da escolha feita por Jesus. Quem está em destaque perante ele é o povo e não as autoridades. E mais, sua autoridade é acompanhada de uma ternura incomum, que torna-o diferente dos demais pregadores. Vejamos como no desenrolar da cena, a pesca entra como um prolongamento de quem observa a vida dos que o cercam.

Pedro, a pesca e nós

“Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar”. Avança Pedro. Coragem Pedro. A barca era de Simão e os peixes “escondidos no mar”. Numa nítida metáfora não podemos ver aqui o retrato da abundância messiânica? O que nos impede de enxergar no texto, a liberdade provocadora de Jesus diante da natureza, das pessoas, dos apóstolos e do povo? Para seguir Jesus de perto e fazer o que Ele fez tem que ser livre. Avança Pedro, avança comunidade tíbia e medrosa. O recado é claro: estamos engessando o evangelho. Nossa visão de Jesus e de sua profecia é quase sempre míope e interesseira provocando letargia – sono profundo – e um grande desgaste na maneira de apresentar o evangelho.

Em tempos de águas turbulentas é necessário arriscar mais e desapegar-se de certos preconceitos que atrapalham e, muito, os evangelizadores atuais. Alguns deles são: fundamentalismo e restrição ao círculo dos grupos católicos. Tudo isso acontece de forma nítida porque estamos ansiosos em pregar a “nós mesmos”. O conteúdo da pregação em muitos casos é recheado de lacunas aonde não se percebe a relação do pregador com aquilo que ele fala. Árbitros e juízes, senhores e moralistas se antecipam e condenam na pregação a tudo e a todos. Em certos momentos e lugares estão mais incisivos e condenativos do que os pregadores do período medieval. Há muitos e muitas enxergando heresias e erros em todo canto. Que pobreza. Não teria Pedro, por ordem de Jesus, apanhado peixes diversos e diferentes? Que mania de prejulgar e excluir do Reino quem não tem a marca dos grupos e das igrejas.

Nossa pesca está se tornando obsoleta. Não podemos esquecer que o mar não é nosso, as redes, também não. Na verdade, somos peixes da embarcação de Pedro e não os donos do barco. Somos aprendizes da história do reino e quanto mais nos dispusermos a escutar o Mestre que continua sentado nas praças, ruas, avenidas, favelas e hospitais, mais sua voz ecoara na tentativa de transformar a história e as pessoas que acreditam na sua proposta libertadora. Ou ainda pensam que Ele está apenas na “nossa igreja”?

José Soares de Jesus

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A REJEIÇÃO DOS PROFETAS

O caminho traçado por Lucas nesse quarto domingo do Tempo Comum (Lc 4, 21-30) continua a disputa entre Jesus e os nazarenos na sinagoga. Cabe ressaltar que Nazaré foi o lugar onde ele se criou. Era conhecido no vilarejo e gozava de certa simpatia. Só que ao se anunciar como Messias tudo mudou.

A rejeição. É típico dos textos bíblicos a rejeição aos profetas sobretudo no Primeiro (antigo) Testamento. Bom lembrar Amós, Ezequiel e sobretudo Jeremias. Nos parece que uma questão basilar se impõe: quando o profeta fala sobre Iahweh e esbraveja, dizendo que Deus está descontente com o povo, sem problemas; mais quando ele ousa apontar os pecados de Israel, ai tudo muda. Na verdade, trata-se de uma situação que acompanha a história humana nas diversas tradições religiosas. Vários e vários grupos - afora Isarel - além do judaísmo tiveram a presença de homens e mulheres profetizando. A concepção e o corpo da pregaçlão muda, mais a teimosia e o orgulho do povo, não. Se olharmos bem o caso de Jeremias, notaremos que a rejeição e o sofrimento perpassaram sua atividade profética. Muitos textos apontam para a tristeza e diría até, depressão do profeta com a situação vivida na sua época. Mencionemos alguns: Jr 2, 20-37; 8, 18-23; 11,18-23 e tantos outros dele e de outros. São descrições fortes e de uma teologia incomensurável porque toca na ardilosa incapacidade entre sacerdócio e profecia, sobretudo numa época que muitos sacerdotes se vendiam aos reis de Israel. É, templo e pregação profética não confluiam e, por isso, a trajetória do Messias no evangelho não poderia ser amena.

Com Jesus seria diferente?
A proposta de Jesus transcendeu a vocação dos profetas. Na verdade, Jesus não anulou os profetas antigos mais superou as expectativas do povo quando criou um movimento de homens e mulheres para segui-lo. Acendeu com sua pregação um fogo de esperança e destoou daquilo que sacerdotes, escribas e doutores da lei esperavam. Ele não se detem ao Templo. Quebra as estruturas injustas que torturavam os pobres e sofredores. O próprio Lucas apresenta Jesus na sinagoga várias vezes e quando realiza sinais é criticado e rejeitado: 13, 10-17. Jesus foi rejeitado e tratado como subversivo da lei. O que denota na sua pregação pelo estilo de vida que levava, é que Jesus preocupava as autoridades religiosas da época. De novo, Templo e Profecia não se combinam. O Reino pregado por Jesus não cabe dentro das estruturas religiosas. Pelo jeito, teremos que encarar hoje essa ruptura, mais cedo ou mais tarde. A questão é se teremos clareza para ler os sinais dos tempos e continuarmos a trajetória proposta por Jesus.

Jesus e a profecia hoje
É complexo mencionar nos tempos atuais aonde vivem de fato os profetas. A força da 'Palavra' continua ardendo no coração do povo de Deus, sobretudo dos mais pobres. Só que os espaços são limitados para uma vivência jesuânica forte e contundente. Nas comunidades em geral sobra uma igreja de movimentos e que ao nosso ver, perfaz um caminho oposto ao de Jesus. Exsite preocupação com a estética e com o culto em detrimento da profecia. Muitos e muitas ousam resgatar o caminho do Messias e se faz necessário ouvi-los. Podemos recordar o testemunho de D. Romero, de D. Hélder e D. Távora. A coragem da africana Joseja Bakita, de Madre Tereza e de Dorothy Stang. Sentimos que nos meios eclesiais existe suspeição da causa vivida por eles e elas, mais o projeto de Jesus continua vivo na memória e na história deles (as). Quando nos defrontamos com a luta quilombola e a coragem profética do Pe. Isaías Nascimento aqui em Propriá, sentimos que ainda vale a pena crer no Reino. A profecia não morreu. A rejeição dos profetas não significa que morreu a utopia; pelo contrário, o sangue deles e a força da eucaristia simboliza a gratuidade de quem encontrou seu verdadeiro tesouro (Mt 5,1-12a).

José Soares de Jesus
Mestre em Cc da Religião - UNICAP/PE

sábado, 6 de outubro de 2012

DEMOCRACIA REPRESENTATIVA


Chegamos ao dia das eleições municipais. A noção de cidade e de democracia deveria nortear os eleitores (as) nesse momento tão delicado de nossa conjuntura. Só que infelizmente, muitos ignoram sua condição e até vendem de forma humilhante o seu voto.

Na cidade – e para nós de Aracaju – passamos a maior parte de nossas vidas. Nela sofremos, choramos, lutamos, sorrimos e votamos. Nas eleições municipais todos esses traços aparecem com força e nosso dever é contribuir com uma participação altiva e coerente.

O último debate dos candidatos majoritários em Aracaju foi pífio e desastroso. Nada de novo surgiu e, pareceu-nos um teatro o engessamento dos participantes e das perguntas. Não sentimos firmeza. Temas fundamentais para o povo aracajuano passou distante e alguns ataques pessoais voltaram à tona manchando a democracia e esnobando da inteligência do (a) eleitor (a).

Temos a convicção que dessa vez ainda não avançaremos em questões urgentes para a coletividade. Podemos citar a dimensão ambiental e a problemática dos transportes. Na primeira, vemos o rio Sergipe poluído e agonizando em nossa capital. Que vergonha! A população, representada por entidades, igrejas, sindicatos e grupos ligados ao meio ambiente tem feito muito pouco. Os gestores: nada! E então, quem vai nos representar nessa luta? Na segunda, estamos à deriva. As empresas de transporte coletivo mangam da população. As propostas da campanha precisam de exeqüibilidade e nós, cidadãos e cidadãs temos que cobrar. Sair desse “anestesiamento social” e de uma inércia profunda que gera corrupção e permite aos gestores adiar sempre mais as mudanças necessárias. Transporte de qualidade e, sobretudo, viabilizar conforto e menos poluição ao meio ambiente.

Num pais como o Brasil, aonde o regime político permite eleição para os municípios é uma vergonha omitir-se da votação. A democracia representativa é uma condição de fazer valer nosso voto para prefeitos e vereadores honestos e comprometidos com o bem comum. O prefeito exerce de forma “macro” o papel de um síndico. Ele governa e dirige o município para todos e todas; ele nos representa e não deve ser o dono das verbas e da vida da população. Por isso, deve cair quando governa mal. E os vereadores (as)? Possuem tarefa complexa. Apresentam projetos e fiscalizam o executivo. Num regime democrático e representativo como o nosso, vereador recebe delegação de um coeficiente “X” da população. Não é assistente social para doar coisas e empregos. Não é um “messias” na concepção de que deve salvar rebanhos. Cremos que no legislativo nossa escolha deva ser mais acurada. Eleger um (a) vereador (a) exige critérios éticos e na nossa cidade todo cuidado é pouco com a ingerência de empresas e grupos econômicos. A população precisa acordar para não sofrer depois conseqüências desastrosas como no caso do Plano Diretor.

Democracia é um exercício delicado e necessário. Representatividade exige consciência e uma práxis mais comunitária. Votar, eleger, cobrar e mudar de candidato pode ser uma boa saída, quando a população reconhece seu papel no sistema político. Para fechar – por hora – a questão, citamos um trecho da Centessimus Annus:

·        “A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torne oportuno; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objectivos ideológicos” (n. 46).

Oxalá, Deus nos permita dias melhores na nossa cidade. Consciência cidadã mais apurada e tempos melhores para nossos filhos (as), netos e netas.

José Soares de Jesus

Mestre em Ciências da Religião –UNICAP/PE

·        João Paulo II, Encíclica Centessimus Annus, 1991.

 

sábado, 8 de setembro de 2012

O EVANGELHO DE MARCOS - LIVRO DE COMUNIDADE

                                                                                            
               A Igreja no Brasil segue um caminho missionário de intensa profundidade quando destaca a BÍBLIA no mês de setembro. Para quem trabalha e cuida de comunidades é uma oportunidade impar para aproximar ou reaproximar nosso povo da Palavra.

Durante esse ano de 2012 estamos trabalhando o evangelho de Marcos. Sentimos uma paixão imensa por esse primeiro relato da vida de Jesus. Os traços históricos do homem Jesus são fortes e impressionantes. Sugerimos a leitura orante de todo o cap. 6. Rejeição, conflito, ousadia e missão marcam a perícope.

Também é necessário destacar que o evangelho foi escrito para e a partir de uma comunidade. Não existe evangelho ou boa notícia solto, inconcluso, etéreo, abstrato e sem conexão com a realidade. Tudo isso serve para fugirmos de duas tentações terríveis que invadem nossas comunidades: a primeira é “fazer do evangelho um livro de receitas ou soluções mágicas” (explicarei no próximo artigo) e, a segunda é o fundamentalismo. São perigos recorrentes que tornam os cristãos (as), ou pelo menos, alguns mal informados, discípulos da violência e da intolerância. Isso porque usam a bíblia/evangelho como se fosse uma espada esquecendo-se de seu traço libertador e amoroso.

O Pe. Bortolini assevera com propriedade: “Marcos foi o primeiro evangelho a aparecer por escrito, e seu autor pode ser considerado o criador de um gênero literário chamado evangelho. Essa palavra, que significa boa notícia, não se refere a um livro, mas sim a seu conteúdo. Os Evangelhos não surgiram para serem considerados biografia de Jesus, mas canais transmissores da boa notícia, que é o próprio Jesus, em suas palavras e atos. Suas palavras e atos visibilizam o Reino, o projeto do Pai”.

Então vamos a sua leitura e reflexão nas comunidades. Lembremo-nos de um recado contumaz de João Marcos – esse é o nome de que escreveu o evangelho (Atos 12,12) – que é Seguir a Jesus. Um traço indispensável para uma boa leitura. E recomendo a leitura de Mc 10, 46-52. E um material maravilhoso para se aprofundar mais pode ser encontrado pelo site: www.cebi.org.br .

 

 

José Soares de Jesus

Curso de Teologia

e Pós-Graduação em Mag. Ensino Superior

Pela UNIT –ARACAJU

MESTRE em Ciência da Religião

UNICAP - PE